A peça acontece numa elipse de tempo, dentro da qual a personagem principal, Leda, revisita seu passado para reunir os pedaços de sua alma.

O cenário da peça é um casarão do final do século passado. Ele se apresenta como um local abandonado, no início, quando os personagens estão no tempo presente e transforma-se no café, em seus dias gloriosos, quando a narrativa retrocede a meados da Segunda Guerra.

Todos os personagens e fatos desta obra são fictícios. Além de breves citações a fatos, dos tempos da Segunda Guerra, a peça não tem como base nenhum lugar ou acontecimento do passado.
O personagem Nei, o garçom, situa-se, simultaneamente, nos dois tempos da peça: ele acolhe Leda no passado e no presente. Seu diálogo com a velha senhora, constitui-se nas reflexões que esta faz acerca do tempo, da vida e do amor.

A música tem uma presença intensa no espetáculo, uma vez que a história acontece num café, que reunia a fina flor da boemia da época. Mas a peça não se constitui de um musical: é teatro com música. Ou seja, a música não faz parte da narrativa; é um recurso dramatúrgico para costurar as ações principais.

O figurino e a linguagem remontam aos anos 1940. Procuramos, através das situações, do humor e do comportamento dos personagens, restaurar a inocência daquele tempo. Até a contravenção não tinha a violência de hoje.

Os personagens Leda e Rudimar conduzem a ação dramática do espetáculo. Ela é uma moça direita, nascida no interior, mas não é tola. Usa de sua esperteza para convencer D. Filó, dona do América, a lhe dar emprego. Rudimar é um personagem instigante. Educado em uma família burguesa, torna-se líder da malandragem e movimenta-se, com facilidade, entre a fauna das docas e dos bares da cidade. É charmoso, inteligente e não acredita na violência. Todos gostam dele.

Mesmo com o fim trágico de Rudimar, a peça não tem um acento pesado; ao contrário, constitui-se em uma história de amor, contada a partir da fragmentação do tempo. Como nas nossas lembranças, ela não se apresenta de forma linear e realista. Tudo o que acontece em cena são, na verdade, pensamentos de uma mulher que, em idade avançada, teve a coragem de revirar em suas gavetas emocionais.

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